segunda-feira, 3 de agosto de 2009




Os surfistas fazem parte de um seleto grupo da humanidade. Um grupo cada vez mais raro. Um grupo que possui uma forte ligação com a natureza. Esta ligação os torna especiais. Esta ligação lhes dá quatro possibilidades para morrer: distração, abstinência, limite ou felicidade. Para ser mais claro, contarei a morte de quatro surfistas.O primeiro, após anos encarando as maiores ondulações todos os invernos, sempre com muita técnica, respeito e concentração, em um dia de verão bateu a cabeça na areia após um ingênuo mergulho.Imediatamente cessaram todos os seus pulsos vitais.
Ele morreu de distração.

O segundo, apaixonado pelo mar e pela simplicidade que este exige, um dia se apaixonou por uma menina em uma festa de campeonato. Ele estava lá porque havia ganhado o campeonato, ela queria exibir sua vaidade e seu novo corte de cabelo. Seus valores eram diferentes.A paixão cega o homem. E ele se convenceu de que o dinheiro vale mais que as ondas, que o status vale mais que a saúde, que o poder vale mais que a liberdade.Largou a prancha e comprou um terno. Esqueceu a galera e largou os ideais. Engordou e se esqueceu do mar. Ficou rico e se esqueceu da vida. Virou viciado e procurou a igreja, mas não havia mais tempo. As veias entupiram e um ataque fulminante o matou. Antes de morrer ele lembrou daquilo que mais amou na vida: o mar. Não havia mais tempo.
Morreu de abstinência.

O terceiro morreu no limite. Assim como o primeiro, dominava as ondas gigantes. Já havia surfado as temidas ondas do Taiti mais de seis temporadas e no maior dia de seu ultimo ano, cansado de pegar os tubos de sempre, os tubos que milhares de surfistas sonham surfar um dia, ele resolver ir além. Na temida bancada de Teahupoo ele dropou uma onda de seis metros muito atrasado. Com competência completou o drop e entubou muito fundo, saiu na baforada e, não satisfeito, resolveu dar um floater na parte que a onda fecha. Vôo sobre a crista. Seu ultimo vôo. Quando despencou, em uma queda mais longa que qualquer tubo de sua vida, encontrou a bancada de coral lá embaixo. Ele ingenuamente acreditava que sobreviveria. Antes de chocar-se com a água ele firmou as pernas, a prancha esmigalhou-se, seu corpo fundiu-se ao coral.Fará eternamente parte da bancada mais amada do planeta, nunca mais pegará um tubo.
Perdeu-se frente ao limite.

O quarto espero ser eu. Após muitos anos surfando, sempre atento, nunca deixando meus valores e sempre cuidadoso no limite, morrerei pós uma sessão de surfe com meus netos e bisnetos, deitado na areia, sorrindo de felicidade.

Por: Carlos Portella

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